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Portugal à Lupa

Há 13 anos a calcorrear o País como jornalista, percebi há muito que não valorizamos, como devíamos, o que é nosso. Este é um espaço que valoriza Portugal e o melhor que somos enquanto Povo.

Portugal à Lupa

Há 13 anos a calcorrear o País como jornalista, percebi há muito que não valorizamos, como devíamos, o que é nosso. Este é um espaço que valoriza Portugal e o melhor que somos enquanto Povo.

Belmonte: a vila que deu ao mundo Pedro Álvares Cabral

Situada numa das encostas da Serra da Estrela e com o rio Zêzere a seus pés, nesta vila da Beira Interior, berço do navegador Pedro Álvares Cabral, a vida corre lenta, sendo apenas interrompida pelos grupos de turistas que animam as praças e ruelas. Subimos ao castelo, visitámos os museus e as igrejas e fomos conhecer a antiga Judiaria e actual Sinagoga, símbolos maiores da comunidade judaica na região.

 

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Fotos: Ana Clara

 

Em Belmonte, vila da Beira Interior que integra a Rede das Aldeias Históricas de Portugal, e que remonta ao século XII, quando D. Sancho I lhe concedeu o foral, há, como em muitas cidades e vilas portuguesas, uma avenida, considerada ponto central que orienta o turista para a restante localidade.

 

No caso de Belmonte, é a Rua Pedro Álvares Cabral que cumpre este papel, e onde se situa a maior parte dos serviços da vila, como a Câmara Municipal, agências bancárias, e algumas lojas e cafés. Tal não seria difícil de perceber já que foi aqui que nasceu, em 1467, o navegador Pedro Álvares Cabral, que descobriu o Brasil em 1500. Em sua homenagem, é nesta rua que está situado o Museu dos Descobrimentos, situado no antigo Solar dos Cabrais, dedicado precisamente a este período da história portuguesa.

 

Ao percorrer as ruas e praças da vila, percebe-se que o navegador português é lembrado em quase todo o lado, havendo igualmente uma estátua em sua memória, de granito e bronze, situada no Largo Dr. António José de Almeida. «A nossa terra é mais conhecida pelo Pedro Álvares Cabral». Quem o atesta é Maria Teixeira, que está à janela da sua casa térrea, mais à frente, na Rua 25 de Abril.

 

«Temos até um Museu dos Descobrimentos, sabia?», questiona Maria, dizendo que «são os turistas» que atualmente «trazem vida e animação à vila». «Faz-nos falta muito trabalho, porque fecharam as principais fábricas que tínhamos», lamenta.

 

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Aos 72 anos, a idosa resume em minutos o filme da sua vida que classifica como tendo sido «de tormentas». Nascida e criada em Belmonte, ali casou, tendo trabalhado «a vida inteira» na empresa de confeções Cilvet, que entretanto faliu, «e que deixou muita gente no desemprego», lembra Maria, em tom de tristeza.

 

Para compensar a ausência de oportunidades de trabalho, afirma que «apesar de os turistas chegarem à vila com a carteira cada vez mais vazia» ainda são eles «que vão entretendo os que por cá moram». «Mas aqui as pessoas podem viajar nas memórias do tempo, temos imensos museus, o castelo e depois os judeus, que fazem parte também da terra», sublinha.  

 

O castelo e a Igreja de São Tiago

 

Prosseguimos viagem rumo ao castelo de Belmonte, construído por D. Sancho I no século XIII. Símbolo defensivo da Reconquista portuguesa, está também intimamente ligado aos Descobrimentos, já que foi residência da família de Pedro Álvares Cabral até aos finais do século XVII. Subimos à Torre de Menagem. O dia está ventoso mas, ainda assim, permite apreciar a vista. Ao longe, avista-se o vale por onde corre o rio Zêzere e, à volta, a paisagem em tons de verde que se apresenta como um verdadeiro postal turístico da Beira Interior. O silêncio, esse, é apenas interrompido pelo sopro intenso do vento do dia.

 

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Ao percorrermos o castelo, são visíveis as várias transformações efetuadas no pano da muralha oeste, com a construção de várias janelas panorâmicas, destacando-se uma janela de estilo manuelino, da primeira metade do século XVI. Atualmente o edifício tem funções turísticas e culturais, tendo sido construído um anfiteatro ao ar livre e uma sala oitocentista transformados em espaços museológicos dedicados à história do concelho e do castelo.

 

Perto do Castelo situa-se a capela de Santo António, mandada edificar pela mãe de Pedro Álvares Cabral, D. Isabel Gouveia, no século XV. Segue-se a próxima paragem, um pouco mais abaixo: a Igreja de São Tiago e Panteão dos Cabrais, um monumento de traço românico, que sofreu modificações ao longo dos tempos, apresentando também alguns elementos góticos e maneiristas, como nos explica a técnica do espaço.

 

Naquele dia de abril, são muitos os turistas que entram e saem da Igreja, e a responsável está atarefada, não parando um segundo para responder às dúvidas dos curiosos. Porém, conta-nos que não há certezas da data de construção deste templo, «tendo talvez sido construído em 1240».

 

No seu interior destaca-se, entre muitos elementos, uma Pietá, talhada numa única peça de granito da região e pode ainda observar-se o altar-mor, decorado com frescos do século XVI, representando Nossa Senhora, São Tiago e São Pedro, «que muitos dizem ser uma representação de Pedro Álvares Cabral», explica a técnica.

 

Situada num dos caminhos portugueses de peregrinação a Compostela, a Igreja de São Tiago seria também um local onde os peregrinos «encontravam um conforto espiritual no decurso da sua jornada».

 

Adossado à Igreja está o Panteão dos Cabrais, construído em 1483. A renovação deste deve-se a Francisco Cabral, primeiro alcaide de Belmonte após a Restauração, tal como a ele se devem alguns túmulos renascentistas ali existentes datados de 1630, como explica o painel informativo à entrada do espaço.

 

A força da comunidade judaica

 

Mais à frente, na Rua da Fonte da Rosa, encontramos a sinagoga de Belmonte, símbolo que comprova a existência de uma comunidade judaica viva na vila. Em Belmonte, uma comunidade de judeus está referenciada desde o século XIII, testemunhada pelo achado de uma epígrafe e datada de 1297. A presença de judeus na vila não é um facto isolado no caso de Belmonte, tendo-se conhecimento da existência de outras judiarias nas cidades, vilas e aldeias da região.

 

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Com a expulsão de judeus decretada por D. Manuel em 1496 e, posteriormente, com a instauração da Inquisição, muitos judeus abandonaram a vila, e os que ficaram professavam a sua religião em segredo.

 

Atualmente a comunidade judaica de Belmonte, que oficialmente existe desde 1988, tem uma sinagoga nova e um cemitério próprio. A sinagoga foi inaugurada em 1996, encontrando-se orientada para Jerusalém e tem o nome de Bet Heliahu, em homenagem ao judeu benemérito que ordenou a sua construção. «Acredita-se que é a última comunidade de origem cripto-judaica a sobreviver, enquanto tal, em toda a Europa», lê-se no documento informativo que nos disponibilizam na autarquia de Belmonte.

 

Daqui, rumamos à antiga Judiaria, estando organizada em torno das atuais rua Direita e Rua Fonte da Rosa. As estrelas de David nos portões, os castiçais na porta e no gradeamento identificam este templo judaico. No exterior, descobrem-se pormenores como as várias caleiras que sobressaem das paredes recolhendo a água da chuva para o Mikvé (tanque interior onde se tomam os banhos da purificação).

 

«Os judeus eram sobretudo artesãos e comerciantes pelo que nas suas casas, o piso inferior estava destinado à oficina ou à loja, apresentando este, na maioria dos casos, duas portas. Nas ombreiras destas alguns motivos cruciformes são ainda visíveis», esclarece Graça Ribeiro, proprietária da casa de turismo em espaço rural Passado de Pedra, em Caria, freguesia do concelho de Belmonte, que nos acompanha na visita.

 

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No regresso, encontramos Ana Maria, que vive numa rua ali mesmo junto da antiga Judiaria. Metemos conversa com esta mulher de 54 anos, sentada à porta de casa, e atualmente na pré-reforma, e que passa os dias a trabalhar na horta que cultiva uns metros mais abaixo. A «falta de saúde», diz, «obrigou-me a sair da fábrica de confeções», outra das que na região foi à falência.

 

A vida por aqui «é calma», refere, sublinhando que «apenas os turistas vão dando cor a Belmonte». «Pode não acreditar, mas há dias em que são mais de seis e sete autocarros os que aqui chegam com turistas. É o que nos vale», refere, despedindo-se em seguida para ir «ver da panela do almoço» que tem ao lume.

 

A viagem a Belmonte começa a chegar ao fim. E, de regresso ao ponto de origem, à Rua Pedro Álvares Cabral, atravessamos o Largo Afonso Costa, onde nos sentamos junto a um banco de jardim para descansar as pernas. De repente descobrimos mais uma história de outro português que marcou a história da vila. Junto ao banco, há uma lápide que homenageia o músico José Afonso, que viveu em Belmonte com a avó paterna e um tio.

 

Graça Ribeiro, que ainda nos acompanha na visita por Belmonte, diz que a história que «se conta» é a de que terá sido aqui que Zeca Afonso viveu as suas primeiras paixões amorosas e as suas primeiras animosidades políticas em particular com o tio, que era chefe da Legião Portuguesa e Presidente da Câmara. «É uma vila recheada de história e surpresas esta», remata Graça Ribeiro.

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