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Portugal à Lupa

Há 13 anos a calcorrear o País como jornalista, percebi há muito que não valorizamos, como devíamos, o que é nosso. Este é um espaço que valoriza Portugal e o melhor que somos enquanto Povo.

Portugal à Lupa

Há 13 anos a calcorrear o País como jornalista, percebi há muito que não valorizamos, como devíamos, o que é nosso. Este é um espaço que valoriza Portugal e o melhor que somos enquanto Povo.

Ílhavo: volta ao mundo da cerâmica da Vista Alegre

O labor pode atualmente não ser tão intenso como aquele a que se assistia no princípio do século XIX. Contudo, em Ílhavo, na fábrica de porcelana Vista Alegre, trabalham ainda hoje mais de 600 pessoas. Contribuem, por ano, para uma produção de 15 milhões de peças em porcelana, cristal e vidro. Visitámos a primeira empresa nacional de porcelana, fundada há 190 anos. O complexo conta, ainda, com um Museu, o bairro operário ali criado e ativo até 2010 e a Capela da Nossa Senhora da Penha de França, padroeira da Vista Alegre.

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Texto e Fotos | Ana Clara

 

A algumas dezenas de quilómetros do centro da cidade de Ílhavo está situada a conhecida Vista Alegre Atlantis, numa antiga quinta do bispo de Miranda, D. Manuel de Moura Manoel, inquisidor-mor e reitor da Universidade de Coimbra em meados do século XVII, e sepultado na Capela da Nossa Senhora da Penha de França, também no interior do complexo da fábrica, e santa padroeira da Vista Alegre.

 

Quando entramos na propriedade, abre-se um mundo que nos faz recuar quase duzentos anos em vários aspetos e nos transporta ao início do século XIX. Foi precisamente a 1 de julho de 1824 que José Ferreira Pinto Basto teve o «sonho visionário» de fazer deste negócio «um sucesso» e que viria a registar «uma notoriedade exemplar», nota Filipa Quatorze, responsável de Marketing da empresa, que nos acompanha na visita ao complexo. 

 

Os jogos de luzes e de sombras entrecortadas pelas folhas das árvores no exterior, que povoam os ambientes entre a capela, o bairro operário que ali funcionou até 2010 (ano em que foram despejados os últimos trabalhadores reformados que ali residiam) e a fábrica, dão um ambiente peculiar ao local, que, ao final da tarde, com o sol a pôr-se, ganha outra cor.

 

Esta reportagem começa precisamente pela visita ao mundo de Pinto Basto precisamente pela fábrica, onde atualmente trabalham mais de 600 pessoas.

 

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Filipa Quatorze, diz-nos que a cerâmica Vista Alegre distingue-se por determinadas características como «a sua brancura, translucidez, resistência mecânica e uma sonoridade própria».

 

A primeira fase de todo o processo, que combina manufatura com tecnologia de ponta, constitui o chamado «circuito tradicional de produção» e designa-se por «conformação por via líquida», explica Filipa, adiantando que se trata de uma técnica de produção que usa a pasta de porcelana no seu estado líquido.

 

«É a primeira fase do processo, é uma técnica tradicional, e tem como objetivo produzir peças de formas irregulares ou peças ocas, como terrinas, caixas ou açucareiros, por exemplo», vinca a responsável da Vista Alegre Atlantis.

 

Depois todo o processo passa pelos moldes, em gesso, salientando a forma do objeto, seguindo-se a chamada tubagem onde «se enche de pasta líquida o molde».

 

As peças seguem depois para a roda de oleiro e, «depois para uma zona de estufa, para secagem. De seguida dá-se o acabamento, onde são retiradas as imperfeições e irregularidades e se uniformiza a superfície das peças».

 

«Depois voltam à linha e são colocadas em prateleiras e carros e seguem para o forno», acrescenta Filipa.

 

A maioria das peças é produzida de modo tradicional, sendo que a tecnologia de ponta também está presente nalguns processos, «em linhas mais direitas e simples», como em objetos como pratos, travessas e chávenas. «A Vista Alegre também se caracteriza por isso, pela combinação do tradicional com o moderno, adaptando-se à evolução da própria indústria também».

 

Museu, bairro e capela:

 

Seguimos depois para o Museu da Vista Alegre, inaugurado em 1964, e situado ao lado da Fábrica. Um projeto, adianta Filipa Quatorze, que «é também a concretização do que se vinha delineando desde o início da laboração da fábrica».

 

Em várias salas o visitante pode contemplar a «evolução histórica da porcelana» ao longo de quase 200 anos e «apreciar peças em vidro e cerâmica, as mais representativas da empresa», desde a sua fundação até aos dias de hoje.

 

Os núcleos principais do museu comportam as coleções em cristal e vidro, pó de pedra e porcelana, provenientes da produção a fábrica desde 1824 até à atualidade. Há uma sala dedicada ao fundador José Pinto Basto e o contributo que deu para a fundação da primeira empresa a fabricar porcelana em Portugal.

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Um outro espaço é dedicado ao período do vidro (que representa os primórdios da fábrica) e outro espaço onde se observam as obras que resultaram nos primeiros ensaios de porcelana.

 

O chamado período de «esplendor de ouro» também tem destaque neste Museu, sendo considerado o momento áureo da produção da Vista Alegre, quando a empresa contratou Victor Rousseau, um francês com qualidades ímpares de desenhador e pintor, e que foi também responsável pela formação de gerações de mestres da Vista Alegre. A arte na pintura cerâmica, o desenho e a arte nova aplicada à cerâmica são outras componentes do espaço.

 

Ao lado da Fábrica e do Museu, está situado o bairro operário da Vista Alegre, um dos raros casos em Portugal, que resultou de um projeto social privado que criou uma «autêntica aldeia industrial».

 

A sua construção começou pouco depois da fundação da fábrica, e aqui moraram durante décadas os operários da fábrica e as suas famílias. Havia assistência médica, um colégio, corpo de bombeiros e várias atividades escolares e culturais para as crianças.

 

Uma forma, resume Filipa Quatorze, de «sedimentar a fixação populacional» e que, ao mesmo tempo, «marcava uma unidade ímpar» no desenvolvimento industrial da região e do país.

 

A visita termina depois na Capela da Nossa Senhora da Penha de França, padroeira da Vista Alegre, e mandada edificar em finais do século XVII pelo Bispo de Miranda, D. Manuel de Moura Manoel. Um edifício imponente e que se destaca pela fachada principal que apresenta uma imagem em pedra trabalhada da Nossa Senhora da Penha de França.

 

No interior destacam-se os azulejos setecentistas, os retábulos em mármore e talha dourada e as abóbadas decoradas com frescos do tempo da sua construção.

Importa recordar que em 2001, o Grupo Vista Alegre fundiu-se com o grupo Atlantis, sendo que em 2009, a empresa foi adquirida pelo Grupo Visabeira. Produz atualmente cerca de 15 milhões de peças por ano (em porcelana, cristal e vidro, nos segmentos de mesa, decorativo, bar e doméstico) exportando os seus produtos para mais de 60 países em todo o mundo.

Camarinha: a pérola do pinhal que foi lágrima da Rainha Santa

A camarinha é uma baga comum nas dunas do pinhal de Leiria. Em agosto atinge o seu esplendor, quando se transforma numa pérola branca, outrora símbolo das lágrimas da Rainha Santa Isabel chamando por El-Rei D. Dinis. É com estas bagas que Fátima Rodrigues, da Saborear - Eventos e Marés, faz desde 2008 geleias artesanais, «únicas no país».  

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Texto e Fotos | Ana Clara

 

A camarinha, com o nome científico de Corema Album, é uma baga de cor branca e tem como habitat preferido regiões do litoral, ornadas por sistemas dunares. Assim acontece nas proximidades do pinhal de Leiria, onde a floresta ganha um encanto especial em Agosto, quando as camarinhas, tornando-se pequenas pérolas, atingem o seu esplendor.

 

Foi nas camarinhas, quase exclusivamente do litoral português (também povoam uma pequena área nas Ilhas Cíes, na Galiza, Espanha), que Fátima Rodrigues encontrou a inspiração para produzir uma geleia que diz «ser a única» a fazer no país.

 

O sabor, explica, «é levemente ácido» mas ao mesmo tempo «fresco» e «muito apreciado por quem compra».

 

«Ao longo dos tempos, as pessoas da costa levavam muitas camarinhas para casa e depois faziam doce. Achei que era uma coisa que não se podia perder e decidi comercializar. Sou a única pessoa a vender a geleia e é uma grande paixão», afirma Fátima.

 

Um fruto que povoa o pinhal de Leiria e que, na opinião da nossa interlocutora, «devia ser mais aproveitado turisticamente».

 

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Fátima recorda que nos anos de 1960 e 1970 «a camarinha era transportada em cestos de verga e vendida em cartuxo de papel, tal como se fazia com os tremoços e pevides. Havia tanto nas ruas como na entrada do cinema da Figueira da Foz. Lembro-me que faziam tanto sucesso como as pipocas».

 

E acrescenta: «até há bem pouco tempo sei que se vendiam na praia da Nazaré e da Vieira (de Leiria)».

 

O processo de produção, todo ele artesanal, «é moroso», já que a camarinha «é apanhada no local, escolhida, lavada, cozida e filtrada várias vezes para ficar translúcida. Depois apanha calor e muda de cor».

 

Por onde passa, sejam feiras gastronómicas ou eventos turísticos, Fátima Rodrigues, segue sempre acompanhada da famosa Lenda da Camarinha, que «mostra como nasceu esta baga». «Conta-se que o rei D. Dinis andava no pinhal de Leiria, e um dia, ausentou-se. A rainha Santa Isabel foi à procura dele, e quando o viu chegar, começou a chorar. As lágrimas, simbolicamente, derramaram por todo o pinhal e cristalizaram em pérolas», conta a Fátima.

 

Rezava a lenda: «Dizem que Santa Isabel, Rainha de Portugal, montando branco corcel percorria o seu pinhal! “Ai do meu Esposo! Dizei! Dizei-me, robles reais! Meu Dinis! Senhor meu Rei! Em que braços suspirais?! (…) Mas cristalizou-se o pranto em muitas bagas branquinhas e transformou-se num manto de brilhantes camarinhas!...».

 

Com uma oficina particular em Leiria, a doceira faz do negócio gourmet «algo diferente do que normalmente se vê». Além da geleia de camarinha, Fátima produz também compotas de ruibarbo, geleia de pétalas de papoila, doces de figo, amoras e peras, marmelada de maçã e bolachas artesanais.

 

A doceira escoa os produtos em feiras e por encomenda, estando atualmente a tentar entrar na exportação, sobretudo para a Europa. «É um produto único, só nosso, que mais nenhum país pode aproveitar», adianta.

Porto de Lisboa: viagem ao bulício da primeira metade do século XX

«Maravilhosa vida marítima moderna,

Toda limpeza, máquinas e saúde!

Tudo tão bem arranjado, tão espontaneamente ajustado,

Todas as peças das máquinas, todos os navios pelos mares,

Todos os elementos da actividade comercial de exportação e importação

Tão maravilhosamente combinando-se

Que corre tudo como se fosse por leis naturais,

Nenhuma coisa esbarrando com outra!”

 

Álvaro de Campos, «Ode Marítima»

 

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Importante entreposto comercial do país, o porto de Lisboa era, nas primeiras décadas do século XX, uma autêntica cidade dentro da capital. Era ponto de chegadas e partidas, pescadores e peixeiras lisboetas trabalhavam de «sol a sol», turistas envolviam-se na multidão frenética onde oficiais da Marinha tentavam o namorico de circunstância. Hoje, o retrato é «bem diferente», como revela Pedro Castro Henriques, autor da obra «Do Vasto e Belo Porto de Lisboa», publicada em outubro de 2013. Recomendamos leitura paciente e vagarosa, dias depois de ter terminado uma longa maratona de protestos dos estivadores do porto de Lisboa. Vale a pena a viagem ao bulício da primeira metada do século XX. 

Nicola: no histórico café ainda há memórias de conspirações

Lugar de conspirações políticas, debates de ideias, discussões literárias e culturais, o n.º 24-25 da Praça Dom Pedro IV, em pleno Rossio, conta, ainda hoje, uma história que haveria de começar no final do século XVIII. Falamos do Café Nicola, um espaço que continua a ser hoje ponto de encontro de lisboetas e local de passagem de turistas.

 

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Texto e Fotos | Ana Clara

 

«Eu sou Bocage, venho do Nicola, vou p’ró outro mundo, se dispara a pistola».  A frase, inscrita num cartaz, de cor branca, junto à entrada do Nicola, é do próprio poeta setubalense (1765-1805), presença assídua do café histórico da baixa lisboeta.

 

«Conta-se que a frase foi dita pelo próprio Bocage quando, sentado na esplanada do café, um polícia lhe perguntou quem era, de onde vinha e para onde ia, ao que ele terá respondido daquela forma», conta José Cobra, funcionário do emblemático espaço.

 

Foi tal a assiduidade de Bocage no Nicola, que ainda hoje existe no interior do café-restaurante, uma escultura em sua homenagem, da autoria de Marcelino de Almeida.

 

O exemplo de Bocage é apenas um, mas muitos outros podíamos dar, que comprovam que a elite da capital do século XIX e XX não prescindiam das suas mesas no Nicola.

 

O histórico café do Rossio abriu as portas, pela primeira vez ainda no século XVIII (1787) com o nome «Botequim do Nicola», pelas mãos de um italiano com o mesmo nome.

 

Já nessa época fez sucesso junto de políticos, artistas e escritores da época, que o frequentavam. Só em 1928 havia de mudar de gerência quando Joaquim Fonseca Albuquerque o comprou. Passou a chamar-se então apenas Nicola, nome que manteve até hoje.

 

A inauguração oficial, aconteceria um ano depois, a 2 de outubro de 1929. A fachada exterior, da autoria do arquiteto Norte Júnior, até à baixela em prata. Os pormenores foram todos escolhidos a rigor.

 

No interior talha de madeira, ferros forjados e muitos lustres compunham a decoração e em mais uma homenagem a Bocage, que fazia do espaço a sua segunda casa, o pintor Fernando Santos havia de o retratar nas telas que decoravam as paredes interiores e o teto.

 

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Em 1935 sofreu nova remodelação com um estilo mais moderno, numa espécie de transição dos anos 30 para os anos 40. As telas foram substituídas pelas atuais representando as mesmas cenas e retratando Bocage de forma semelhante. Só a escultura e a fachada se mantiveram intactas até aos dias de hoje.

 

«Atracção turística»:

 

José Cobra explica que o Nicola «continua a ser um lugar histórico da cidade de Lisboa», sendo «uma das grandes atrações turísticas» da baixa pombalina. «Os turistas são os que têm mais curiosidade porque mantivemos, ao máximo, a história que lhe deu nome», afirma, acrescentando que os portugueses também «reconhecem o valor do espaço».

 

Para José Cobra, «é evidente que hoje este tipo de casas já não serve os objetivos que em séculos passados tinham», referindo-se ao facto de os cafés serem, em muitas cidades portuguesas, lugares «de conspirações de toda a ordem» e onde até «os próprios empregados eram informadores» de «vários lados da barricada».

 

A provar isto mesmo encontramos no espaço um folheto sobre a história do Nicola onde se conta que aqui se pensaram golpes de Estado, insurreições militares e políticas. Nos 40 anos do Estado Novo em Portugal, o Rossio era o palco privilegiado da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), conta José.

 

«Diz-se que os “pides” adoravam vigiar os cafés da cidade à caça dos inimigos do regime, entre eles, o Nicola, claro», adianta.

 

«É o que resta das memórias dessas conspirações que vamos contando a quem pergunta», sublinha o funcionário, que aqui trabalha há mais de 30 anos.

FIA 2016 regressa no final de junho

De 25 de junho a 3 de julho a FIL está de regresso a Lisboa  Feira Internacional de Artesanato (FIA). Considerada a maior festa intercultural na Península Ibérica e a segunda maior da Europa, organizada pela Fundação AIP com o apoio do IEFP, a FIA promove todas as regiões e suas culturas, mobilizando as especificidades locais em prol do desenvolvimento nacional e crescimento económico.

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A FIA traz à capital, durante 9 dias, profissionais e apreciadores dos ofícios artesanais, artes e design, agentes da área da gastronomia tradicional, bem como interessados no artesanato enquanto manifestação cultural.

 

Em destaque estarão novas áreas de exposição como o Espaço Design Nacional by LxD – Lisboa Design Show, que irá promover peças de joalharia, vestuário, calçado, mobiliário, entre outros, de origem nacional e também terá o Espaço Mixmarket, dirigido ao setor multiproduto e de origem não étnica.

 

À semelhança da BTL, a FIA é daquelas montras onde faltar é proibido. Apontem na agenda.

Castelo Novo: a aldeia que se aconchega no abraço da Gardunha

Na parte sul da Serra da Gardunha, entre as ribeiras de Gualdim e de Alpreada, situa-se a aldeia histórica de Castelo Novo. Aqui dominam as típicas casas de pedra granítica da Beira Baixa. Tomada de longe, a serra parece abraçar a localidade, com perto de 300 habitantes, numa imagem de bilhete-postal. A agricultura é a atividade principal de uma aldeia que vai resistindo à interioridade, ancorada no turismo, que aumentou nos últimos anos.

 

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Texto e Fotos | Ana Clara 

 

Ao abandonarmos a autoestrada da Beira Interior (A23), no Fundão, avista-se ao longe um casario encravado na serra da Gardunha. A imagem parece saída de um postal turístico, onde predomina o verde da estação primaveril, numa espécie de abraço que envolve a povoação encravada nas encostas da serra.

 

Assomem na paisagem algumas cerejeiras carregadas de flor. Promessa do fruto que amadurecerá sob o calor da nova estação. Próximo, à beira da estrada, uma placa rodoviária indica que estamos na direção certa. Castelo Novo, no concelho do Fundão, tem estatuto de localidade histórica desde 1994, altura em que integrou a Rede de Aldeias Históricas de Portugal. À medida que nos aproximamos, um sol intenso de Primavera, convida-nos a percorrer as ruas da localidade. Subimos à aldeia, onde existem recantos em cada rua e ruela, e onde predominam as casas de granito tipicamente beirãs e os seus alpendres solarengos.

 

No Largo D. Manuel I encontramos os primeiros habitantes da aldeia. José Duarte, natural de Castelo Novo, construtor civil e agricultor «uma vida inteira», desliga o motor do trator que conduz. Mete conversa com o conterrâneo Joaquim Paulino, que está de regresso para o almoço depois de uma manhã de rega na horta que cultiva nas redondezas.

 

Encetamos conversa com os dois homens, que avivam memórias da aldeia que os viu nascer e cuja existência surge nos escritos do Reino, pela primeira vez, em 1208, através de D. Pedro Guterres, o primeiro governador da localidade.  

 

José Duarte dedica-se também à fruticultura, um dos setores produtivos «mais fortes» nesta região da Beira Interior. «As cerejas e os pêssegos são os frutos mais produzidos por aqui, mas cultivamos de tudo, é o que a terra dá, desde batata, a feijão e cebolas», adianta.

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Também Joaquim Paulinho se dedica à Agricultura. Aos 56 anos, refere que também nunca saiu de Castelo Novo, e é o negócio da fruta que lhe dá o «sustento da casa», produzindo não só para consumo doméstico como para venda nos mercados de Alcains, Atalaia e Póvoa, localidades próximas de Castelo Novo.

 

Turismo e «romaria» em Agosto

 

Castelo Novo conta, hoje, com uma população aproximada de 300 habitantes. Os jovens «vão embora à procura de emprego que na terra não há» e até a escola primária, «que animava a aldeia» fechou. José Duarte diz que são os turistas, sobretudo espanhóis, que «vão animando a terra durante o ano todo».

 

«Depois de a terra ter passado a aldeia histórica e com a construção da A23 isso trouxe mais turistas», afirma José Duarte, acrescentando que muitas casas foram recuperadas. «Durante muitos anos, algumas famílias residentes em Lisboa aproveitavam para vir descansar para aqui aos fins-de-semana. Mas agora, com as portagens na A23, muitos já não vêm com tanta frequência».

 

É em agosto que Castelo Novo se enche de gente. Os emigrantes, essencialmente radicados na Suíça e em França, regressam à terra com as famílias e «é uma romaria o mês todo». 

 

Deixamos José e Joaquim e prosseguimos viagem até à Casa da Lagariça, no Largo Petrus Guterri, onde Francisco Afonso abriu, há seis anos, uma loja de artesanato.

 

Casa com um nome sobejamente conhecido em Castelo Novo por ali mesmo ao lado ter existido um lagar de vinho datado dos séculos VII e XVII. Escavada na rocha a lagariça testemunha ainda hoje as primeiras culturas e práticas vitivinícolas da região, servindo em tempos idos para o fabrico do vinho da comunidade.

 

Francisco Marques, que nos acompanha na visita, refere que a vida na aldeia «é pacata» e que «é um verdadeiro paraíso para descansar». A sua loja, aberta apenas aos fins-de-semana, veio dar «mais vida à aldeia» e reconhece que, apesar de a crise afetar «o país de forma transversal» é essencial «dinamizar estas aldeias. Só assim se pode contrariar os que abandonam a terra, dando também algo a quem nos visita», sublinha.

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É precisamente Francisco que nos conduz no resto do percurso, que considera «obrigatório», à aldeia. A paragem seguinte é precisamente o castelo, um elemento de referência, com a sua imponente torre de menagem, e cuja construção data do século XIII (1202), no reinado de Sancho I.

 

Situado por detrás dos paços do concelho, no ponto mais alto e central da aldeia, impõe-se do alto das suas muralhas, «numa verdadeira representação de arquitectura militar gótica e manuelina», conta Francisco. 

 

No pano de muralha é visível a existência de duas portas a nascente e a poente, que constituíam entradas na cidadela. Da torre de menagem, a vista sobre a aldeia é privilegiada. Miradouro sobre a teia urbana, um labirinto apertado de casario que forma jogos de luz e sombra.  

 

No castelo há ainda um miradouro virtual que convida os turistas a olhar mais de perto a aldeia, e que conta a história e das tradições de Castelo Novo.

 

Da estrutura defensiva, regressamos às ruas da aldeia. Francisco não descura o seu papel de anfitrião, levando-nos a visitar o Chafariz da Bica, um monumento barroco ostentando a pedra de armas de D. João V. Passamos, ainda, pela praça onde se encontra o pelourinho, de estilo manuelino.

 

Também consideradas monumentos de «real valor arquitectónico», como conta Francisco Afonso, são as igrejas. E Castelo Novo possui duas, «devidamente restauradas». A Igreja Matriz, de estilo medieval, remodelada no século XVIII e que possui no seu interior elementos que representam o estilo barroco. Na Rua da Irmandade da Misericórdia, encontramos a Igreja da Misericórdia, do século XVII.

 

Nas ruas e ruelas as casas apalaçadas conferem a Castelo Novo um tom diferente de encantamento. Há, também, antigos solares do século XVII, pequenas varandas de madeira e na calçada vestígios romanos.

 

No percurso pela aldeia, o silêncio predominante, é apenas interrompido pelas brincadeiras de rua de algumas crianças.

 

Ao deixarmos Castelo Novo, e à medida que nos afastamos, o quadro que nos é devolvido, embora não diferindo do que encontrámos ao chegarmos, ganha os contornos de um sol poente. Um fim de dia com a promessa de uma noite de abóboda constelada, longe dos céus foscos das grandes cidades.

 

Na estrada, de regresso, recordamos as palavras de Francisco Afonso. Há um «ritual da natureza que embeleza Castelo Novo. Especialmente sempre que chega a primavera».  

Oleiros: rota das Montanhas, «a evasão da rotina»

Sob o lema “a montanha é a evasão da rotina” a Rota das Montanhas de Oleiros assume-se como um dos maiores cartazes turísticos da região. Um roteiro à disposição do turista que permite explorar o território da Beira Baixa. São cem quilómetros de extensão num itinerário para se fazer de carro e que abrange geomonumentos e outros pontos turísticos do concelho. Atrair turistas e promover o território são dois dos objetivos da iniciativa que promove igualmente a gastronomia, artesanato e tradições locais.

 

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Texto | Ana Clara

Fotos | Câmara de Oleiros

 

A ideia da Rota das Montanhas de Oleiros passa por atrair novos públicos, nomeadamente os adeptos do montanhismo e da evasão da rotina, assim como diversos operadores turísticos que pretendam desvendar novas vertentes do turismo de montanha.

 

A Rota foi apresentada pela primeira vez em Dezembro de 2010 no âmbito da celebração do Dia Internacional das Montanhas.

 

Sob o lema “a montanha é a evasão da rotina”, o projecto impõe-se como um roteiro turístico idealizado conjuntamente pelo município de Oleiros e pela Naturtejo, entidade que promove o Geoparque Naturtejo, sendo que pretende ser uma ferramenta turística diferenciadora no contexto em que se insere e inspirando-se na tão procurada e diversificada “cultura de montanha”.

 

Trata-se de um itinerário circular por estrada, com quase 100 quilómetros de extensão, abrangendo todo o concelho de Oleiros, em pleno Geopark Naturtejo.

 

A história do padre António de Andrade, natural de Oleiros, que escalou os Himalaias no século XVII também deu o mote a esta iniciativa. O roteiro desenvolve-se num cenário envolvido pelas «míticas montanhas» onde no século XVI nasceu o Padre António de Andrade, «escalador dos Himalaias e descobridor do Tibete».

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A Rota das Montanhas de Oleiros convida, assim, o geoturista a percorrer o território, atravessando paisagens naturais e pensadas pelo Homem (paisagens culturais); a viver a sua cultura e a experimentar os seus produtos endógenos.

 

Os turistas que pretendam realizar esta Rota terão como suporte um mapa onde aparece delineado o percurso viário pelo concelho e pelos seus 33 pontos de interesse, todos georreferenciados.

 

Entre monumentos históricos e naturais, praias fluviais, manchas florestais, aldeias típicas e em xisto, locais de artesanato ao vivo, miradouros, parques de merendas e percursos de BTT e pedestres de pequena e grande rota.

 

Há também vários percursos pedestres ao dispor do turista, com destaque para a grande Rota do Zêzere (que percorre o Rio Zêzere da nascente à foz, percorrendo mais de 50 quilómetros no concelho de Oleiros), a Grande Rota Muradal-Pangeia (Trilho Português dos Apalaches) e os quatro PR´s existentes (os dois Caminhos do Xisto, a GeoRota do Orvalho e o Trilho do Estreito).

  

A cultura, a gastronomia e o artesanato do concelho aparecem referenciados nesta Rota sob a marca de “produtos da montanha”. Várias iguarias gastronómicas atraem inúmeras pessoas ao concelho, como o cabrito estonado, a aguardente de medronho, os geodoces de Oleiros e do Vinho Callum, mas também o artesanato local.

 

Neste campo, destacam-se as afamadas peças em linho, originárias da mais autêntica tecelagem artesanal; os bancos de cortiça (também chamados de “tropeços”); peças únicas em madeira de várias espécies; casas em xisto e peças de cerâmica decorativa, pintadas à mão.

 

No mapa do roteiro, além da sugestão dos oito empreendimentos turísticos de alojamento existentes no concelho, a gastronomia e os produtos típicos de montanha também não são esquecidos, havendo informação sobre os restaurantes e as oficinas de artesanato do concelho.

 

A Rota das Montanhas de Oleiros abrange a totalidade do concelho de Oleiros e foi criada em parceria com empresas intermunicipais, como é o caso da Naturtejo e da Rede das Aldeias do Xisto.

Uma app que ajuda a descobrir os Açores

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Desde 24 de maio que os turistas que visitam os Açores têm mais uma ferramenta que os pode ajudar a descobrir a beleza do arquipélago. Trata-se de uma aplicação (app) dedicada aos Parques Naturais.

 

A app fornece informações sobre a biodiversidade, vulcanologia, geologia, centros ambientais e a existência de trilhos disponíveis dos vários parques naturais de cada uma das ilhas.

 

Gratuita e disponível em português e inglês, a app pode ser descarregada para smartphones e tablets nos sistemas operativos iOS e Android.

 

O lançamento desta aplicação gratuita está integrada na comemoração do Dia Europeia dos Parques Naturais, anualmente assinalada pela Federação Europarc e pretende consciencializar o público sobre a importância da conservação e gestão sustentável das áreas protegidas.

 

Saiba mais sobre os Parques Naturais dos Açores aqui.

Rota das Tabernas regressa a Grândola

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A partir de 10 de junho siga a rota dos sabores da gastronomia típica alentejana em seis locais de tradição e de costumes no concelho de Grândola. A edição de 2016 da Rota das Tabernas começa já no próximo dia 10 na Taberna “Justense” e termina um mês depois na “Casa Dimas”. Durante este período a iniciativa do Município de Grândola, com o apoio do Turismo de Portugal, promove a gastronomia regional e dá a conhecer a tradição musical da região. Nas seis Tabernas aderentes à Rota vai ouvir-se o cante alentejano e grupos de música instrumental do cancioneiro tradicional alentejano. À mesa vão ser servidos os melhores petiscos e iguarias alentejanas. A iniciativa termina a 9 de julho.

Santo André: o navio-museu que evoca memórias da pesca de bacalhau

Antigo arrastão bacalhoeiro que integrou a frota portuguesa de bacalhau nas águas do Atlântico Norte, o Navio-Museu Santo André foi recuperado e tornou-se um espaço de visita. Construída em 1948, na Holanda, a embarcação fez a sua primeira viagem um ano depois. Visitámos este antigo «arrastão», ancorado rente ao Jardim Oudinot. Um encontro com as memórias dos que viveram a bordo.

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 Texto e Fotos | Ana Clara

 

À medida que nos aproximamos deste antigo navio de pesca de bacalhau, ancorado rente ao Jardim Oudinot, em Gafanha da Nazaré, facilmente percebemos quão dura foi a atividade a bordo durante o meio século em que laborou. O Santo André é um arrastão salgador e congelador imponente; mais de 70 metros de comprimento. Um grosso casco, pintado a azul profundo. Uma pujança necessária para as duras águas da Terra Nova, Mar do Norte, Gronelândia, Islândia, Noruega, Ilhas Faroé (território dinamarquês), entre outras regiões onde o navio operou.

 

Uma embarcação que é também um espaço de evocação. Um painel inscreve os nomes de todos os que habitaram este espaço sobrevivendo a condições extremas. Memórias também transcritas sob a forma de relatos dos pescadores. Narrativas plenas de aventuras, dores, mágoas, perdas e muitos pormenores técnicos sobre a «Faina Maior».

  

Um périplo que começa no convés, onde se impõe aos nossos olhos o guincho, sistema outrora operado pelo guincheiro, com potência para suportar o aparelho de pesca e o peixe capturado.

 

Capturas que podiam ascender, com condições propícias, a várias toneladas de peixe por dia. Dai se compreenda a existência a bordo de uma pequena fábrica (o designado Parque de Pesca) de transformação do pescado. Uma unidade com capacidade para processar 12 toneladas de bacalhau diariamente. 

 

Seguimos para o porão de salga e dos congelados. Era aqui que o bacalhau era salgado individualmente e empilhado. A salga era feita por um grupo de salgadores, coordenados pelo mestre de salga.

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Durante a campanha, o peixe preenchia os espaços laterais e centrais até o último bacalhau tapar a boca da escotilha do porão, com capacidade para armazenar mil toneladas de peixe, 80% da capacidade total do navio.

 

Prosseguimos viagem e percorremos alguns dos espaços mais intimistas do navio. Visitamos a cozinha onde, outrora, o cozinheiro e dois ajudantes cumpriam a rotina de confecionar as refeições da tripulação. Seguimos para a câmara dos oficiais, área restrita, com a sua copa, a sala de jantar, os camarotes do capitão, do piloto e enfermeiro, bem como uma casa de banho. Somos convidados a entrar nos restantes camarotes, os que serviam a tripulação.

 

Construído em 1948 na Holanda, o Santo André fez a sua primeira viagem em 1949 nos mares da Terra Nova. O seu primeiro Capitão foi o ilhavense José Pereira Bela, como nos indica uma inscrição no navio.

 

A última viagem do Santo André decorreu em 1997, rumo à Noruega. O comando esteve entregue a Manuel Silva Santos.

 

Na década de 80 do século XX, as restrições à pesca em águas exteriores acabou por apanhar o Santo André na «onda dos abates».

 

O navio foi desmantelado em agosto de 1997. O seu destino era o abate. Foi neste momento que a autarquia de Ílhavo, com a ajuda do armador do navio à época, António do Lago Cerqueira, decidiram unir esforços e transformar o velho Santo André em Navio-Museu.

 

Com a ajuda também da Associação dos Amigos do Museu, o navio seguiu para transformação e recuperação entre 2000 e 2001. Abriu portas a 23 de agosto de 2001, no Cais Bacalhoeiro, na Gafanha da Nazaré. Em 2007, a embarcação foi transferida para o Jardim Oudinot, espaço que recebe anualmente o conhecido Festival do Bacalhau, em memória das tradições pesqueiras locais.