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Portugal à Lupa

Há 13 anos a calcorrear o País como jornalista, percebi há muito que não valorizamos, como devíamos, o que é nosso. Este é um espaço que valoriza Portugal e o melhor que somos enquanto Povo.

Portugal à Lupa

Há 13 anos a calcorrear o País como jornalista, percebi há muito que não valorizamos, como devíamos, o que é nosso. Este é um espaço que valoriza Portugal e o melhor que somos enquanto Povo.

Vale de Ílhavo: aqui ainda mandam as padeiras

Vale de Ílhavo, povoação rural do concelho de Ílhavo, é casa das famosas padas, um pão tradicional, com forma peculiar, que as padeiras da terra tornaram famoso. Além do pão, os folares são outra especialidade que tornou este local popular, na região e no país. Das 30 padeiras que chegaram a laborar na localidade, resta hoje metade.

 

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Banhada pelas tradições e labores associados ao mar, Ílhavo é terra que não assenta apenas na feição marítima. O concelho também cheira e sabe a pão cozido no forno a lenha. E, aqui, as padas e o folar de Vale de Ílhavo não deixam ficar mal o nome do lugar.

 

Uma tradição que nos leva a Norte, à localidade de Vale de Ílhavo, numa noite fria de final de outubro. Uma incursão até à rua onde habita uma das guardiãs do tradicional pão. Atrás de um portão de garagem ainda se produz um dos legados gastronómicos mais significativos da região.

 

Recebe-nos José Ferraz, proprietário de uma padaria. A esposa, padeira de «mão cheia», como sublinha José, recusa-se a falar à reportagem. Pesa a timidez.

 

José, pelo contrário, de verve fácil, presta-se a conduzir-nos nesta viagem pelas famosas padas de Vale de Ílhavo.  

 

A história de Vale de Ílhavo, das padas e das suas padeiras «é fácil de explicar», frisa o nosso anfitrião. Outrora, este era um grande centro produtor de cereais e com muitos moinhos. A população, desde cedo, aprendeu a «aproveitar o melhor que a terra dava», prossegue José Ferraz.

 

«A minha mulher começou a cozer padas aos 15 anos. Há 39 que faz Pão de Ílhavo», recorda o responsável desta padaria.

 

Segredo para este pão «não há», assegura, lembrando que fermento, sal, farinha e água «são a chave da receita. São muito diferentes de todos os restantes pães porque quando são feitos, depois de amassada a massa e tendida, o produto é dividido em dois, para lhe dar a forma correta».

 

«Talvez o segredo, se é que há, é o facto de a farinha não ser tão refinada. Há vários tipos de crivo, como sabe, e quanto mais crivada a farinha é, mais fina se torna. Além disso, o facto de o pão ser cozido no calor do forno de lenha, ajuda a dar o sabor que pretendemos», afiança José Ferraz.

 

A boa disposição reinante não invalida que o proprietário da padaria não queira apressar a conversa. José levanta-se, invariavelmente, às duas da manhã. «E já são oito da noite», alerta, em tom de simpático aviso.

 

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Da casa saem diariamente entre 200 a 300 padas. «Distribuo na região e vendo em algumas lojas do concelho», informa José Ferraz às quintas, sextas e sábados confeciona também os pães doces e os folares de ovos.

 

O folar, de fabrico caseiro artesanal, é outro produto muito conhecido em Vale de Ílhavo. Uma produção com considerável incremento em épocas festivas como o Carnaval e a Páscoa.

 

«O folar é feito com correias de massa para cobrir os ovos cozidos (com casca) que o enfeitam», explica José, que adianta «não haver folar igual por esse país fora».Noutros tempos, recorda José, já chegaram a ser 30 as padeiras de Vale de Ílhavo. «Agora são umas 15, se tanto», diz.

 

Para perpetuar a tradição e incentivar a produção local, a autarquia de Ílhavo promove há vários anos a Rota das Padeiras.