Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Portugal à Lupa

Há 13 anos a calcorrear o País como jornalista, percebi há muito que não valorizamos, como devíamos, o que é nosso. Este é um espaço que valoriza Portugal e o melhor que somos enquanto Povo.

Portugal à Lupa

Há 13 anos a calcorrear o País como jornalista, percebi há muito que não valorizamos, como devíamos, o que é nosso. Este é um espaço que valoriza Portugal e o melhor que somos enquanto Povo.

Trás-os-Montes: Paulo o homem que eterniza rostos

É por terras do Douro Superior, do planalto mirandês, de Barroso e do Marão, que Paulo Patoleia regista rostos em fotografia. São os «velhos transmontanos», como lhes chama, os únicos que vão dando vida a aldeias e vilas. A ideia de fotografar estas populações surgiu há sete anos. Convidamos o leitor a partir à descoberta do blogue «Rostos Transmontanos».

79ff8ee7-b81e-4713-b4d1-c3d861d92e86.jpg

 Fotos: Rostos Transmontanos

 

Na Feira Anual de Pinhel, Paulo Patoleia encontrou a Tia Maria dos Passos. «Mulher raiana, acompanhada pelo marido, “contrabandista de pequenos nadas”. Calças de pana espanhola e meias de algodão azul para cá….café e pessoas de salto alto para lá, histórias por contar com cumplicidades e traições, de muitos intervenientes ainda vivos. Um rosto que deixa adivinhar uma vida dura», descreve Paulo no seu blogue «Rostos Transmontanos».

 

A ela juntam-se António Guedes «Frango», natural de Pocinho, em Vila Nova de Foz Côa, ou o Tio Loureiro, de Torre de Moncorvo, e Alcina de Jesus Lameira, na aldeia de Mós, em Carviçais. São apenas alguns dos rostos e das histórias que a objetiva de Paulo Patoleia captou nos últimos anos.

 

A ideia surgiu pelo convívio diário que o bloguer tem com as populações e com a proximidade com o povo transmontano do qual Paulo Patoleia também faz parte. Para mais a atividade de feirante leva-o a percorrer o circuito dos mercados da região.

 

O projeto do blogue «Rostos Transmontanos» desenvolveu-se sobretudo a partir de 2005, quando Paulo percebeu que havia uma geração de velhos «que carregavam ainda a sua indumentária ancestral, com os chapéus de feltro com aba e os eternos lenços pretos, deixando adivinhar sucessivas perdas».

ce684be9-1927-46c6-8e22-1b75147a947f.jpg

 

 

Essencialmente, conta, «começavam a escassear nas feiras tolhidos pela doença ou morte ou o ingresso nos lares de idosos, resultando esta nova maneira de tratar os idosos/isolamento, numa inevitável quebra da passagem de testemunho e valores elementar aos filhos netos e bisnetos».

 

Aliado a isto, também «o telurismo marcado nestes rostos enrugados, ainda saudáveis e prenhes de sabedoria, foram mais um motivo extra para os imortalizar através da fotografia».

 

Desertificação

 

Do contacto que mantém com as gentes transmontanas, Paulo Patoleia afirma que a região está cada vez mais desertificada, sobretudo «pela falta de emprego epela carência de jovens, que após a sua formação, acabam invariavelmente por procurarem o litoral e, mais recentemente, o estrangeiro, fazendo lembrar os idos anos de 1960/1970 da imigração a “salto”para os menos formados».

 

Contudo, frisa,«também os de melhor aproveitamento nas universidades, rumam ao estrangeiro, com os seus conhecimentos, ficando as aldeias apenas com os “velhos”, homens de bom coração e de boa conversa e as crianças. E são estes velhos, que com debilitada saúdeainda cultivam as hortas numa agricultura de sustento», constata.

 

Para o fotógrafo, a região tem potencial turístico nas suas «variadas paisagens», que vão do Douro Superior ao planalto mirandês passando pelo Barroso e Marão. Contudo, recorda que «apenas as empresas do Douro navegável apostaram forte na compra de barcos e serviços, acabando por não contribuir em nada para a região, ou seja as viagens são vendidas em pack tudo incluído e mais ninguém ganha com isso, pois estão sediadas fora da região».

 

Outra mais-valiada região, refere, é a gastronomia «rica no fumeiro e carnes, frutas, queijos, azeite e vinho de excelência mas com graves problemas de escoamento, caindo invariavelmente nas mãos das grandes superfícies e seus preços tabelados».

 

dd3cb0db-3f3f-45d7-b732-a70c12ca2bc7.jpg

 

Noutras áreas, como asaúde, por exemplo, a situação «tem vindo a degradar-se» assim como no ensino, «assistindo-se ao encerramento dos centros de saúde e escolas, obrigando a população a um esforço financeiro maior e a trajetos de quilómetros suplementares».

 

Paulo Patoleia considera que o trabalho que tem feito através da fotografia irá contribuir para dar «a conhecer às gerações vindouras a identidade desta geração que agora definha, mostrando as suas fragilidades mas também as suas tradições e indumentária, deixando como que uma janela entreaberta para a realidade deste povo entregue a si próprio, quiçá algo abandonado».

 

Considera que «pouco se tem feito para preservar as tradições, o património e a história da região, excetuando o planalto mirandês, onde se tem promovido a música tradicional, tendo como referência os músicos de sucesso internacional «Galandum Galandaina», a língua mirandesa, originária do velho lionês, as festas dos rapazes e as suas máscaras assim como o cabrito e o borrego “churra” e a carne de raça mirandesa e no barroso a barrosã».

 

E enumera mais marcos identitários da região que não podem ser esquecidos, fazendo referência ao «São Martinho de Maçores, que mantém a tradição do caldeiro de vinho transportado aos ombros de dois rapazes por onde se bebe o vinho e que acompanha as castanhas assadas na palha». Paulo lamenta, também,o encerramento das linhas do Tua e Sabor, assim como a do Douro que ligava Pocinho a Barca D’Alva.

 

«Entendo que as expectativas do povo transmontano são de desilusão e abandono, acreditando em ténues tábuas de salvação, tais como as barragens e o nebuloso arranque das minas de hematite da serra do Roboredo, em Moncorvo», diz, em tom de tristeza.

 

Paulo Patoleia acredita, assim, que este trabalho já valeu a pena «pela projeção alcançada».