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Portugal à Lupa

Há 13 anos a calcorrear o País como jornalista, percebi há muito que não valorizamos, como devíamos, o que é nosso. Este é um espaço que valoriza Portugal e o melhor que somos enquanto Povo.

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Reguengos de Monsaraz: do Alentejo para o mundo, um gin lentamente destilado

«Lentamente destilado no Alentejo» o Sharish Gin nasceu em 2013 em Reguengos de Monsaraz pelas mãos de António Cuco, um antigo professor de Turismo que se aventurou, de forma autodidacta, a criar uma bebida confecionada a partir de Maçã Bravo de Esmolfe e ingredientes botânicos. Em poucos meses António criou a marca, já vende de norte a sul e exporta para Angola e Bélgica, superando as expectativas iniciais e tendo ultrapassado a produção prevista para os três primeiros anos. 

 

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Texto: Ana Clara

 

A ideia de criar a marca «Sharish Gin» tal como hoje é conhecida, conta António, começou em setembro de 2013 «com uma brincadeira de amigos», e que aliada a uma situação de desemprego conduziu a um «caso sério de sucesso empresarial».

 

«Começou numa jantarada com um grupo de amigos, onde me desafiaram a fazer o meu próprio gin. Primeiro achei piada mas depois percebi que podia ser uma realidade. Pus mãos à obra, fiz imensas pesquisas na internet, vi inúmeros vídeos e li vários livros. Todos os dias dedicava-me cinco a seis horas a estudar todos os processos», conta. E sempre sozinho, enfatiza.

 

A primeira coisa que fez foi «tentar comprar álcool» já que o gin «é feito a partir de álcool neutro». «Para isso pensei na vodka que, em certo ponto, é semelhante ao gin, a diferença é que a vodka continua neutra e o gin é aromatizado. Então, tendo vodka facilmente chegava o ao álcool. Comprei vodka redestilei-a, tirei a água e obtive o que queria», recorda o antigo professor de Turismo.

 

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A experiência de principiante, lembra, foi feita numa panela de pressão antiga que tinha em casa. «Fui ver o preço dos alambiques mas eram muito caros. Como estava ainda numa fase de testes decidi fazer a experiência numa panela de pressão, na que fiz adaptações para destilar».

 

A receita que criou para o gin é simples: «A minha avó é de Borba e na Feira de Todos-os-Santos (no início de novembro) havia sempre maçãs Bravo de Esmolfe, colhidas na serra de São Mamede, e vendidas na Feira. Desde miúdo que me recordo de as comer e do cheiro que inundava aquele lugar. Um dos ingredientes que soube logo que ia incorporar era a maçã e, já que em Portugal temos o produto DOP – Denominação de Origem Protegida, falei com uma Associação de Sernancelhe com a qual estabeleci depois uma parceria».

 

À maçã juntou os botânicos, que mais não são que os ingredientes do gin (cascas de laranja e limão frescas lúcia-lima, zimbro, cravinho, baunilha e canela). Os primeiros gins nasciam assim em outubro de 2013. Daí ao lançamento do negócio foram meses. A 24 de abril de 2014 lançava o produto no mercado e de meses alcançava um sucesso «nunca antes imaginável».

 

Sobre os processos, António refere que «tudo é destilado em separado, junta-se os botânicos e fazemos uma infusão pós-destilação, conferindo-lhe aromas diferentes. A maçã dá-lhe, por exemplo, um caráter redondo, fácil de beber e muito suave». Todo o processo de destilação dura cerca de oito horas. Já o «lentamente destilado no Alentejo», slogan da marca, não podia ser mais claro, «nos alambiques o gin corre mesmo muito lentamente», conta.

 

Naturalmente Monsaraz…

 

E de onde vem o termo «Sharish»? À pergunta, António Cuco sorri e diz de imediato com orgulho que «só fazia sentido escolher a imagem de Monsaraz para o rótulo, porque é dos meus locais preferidos, porque é dos lugares mais bonitos que temos».

 

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«De caráter português e produzido no Alentejo vai buscar o nome à vila de Monsaraz. “Sharish” era o termo utilizado durante a ocupação muçulmana e que significa “xara” ou “jara” (esteva). Assim, “Mont Sharish” significava monte erguido num impenetrável brenhal de estevas originando posteriormente Monsaraz», conta, acrescentando que «só faria sentido com a imagem de Monsaraz».

 

Mas o sucesso não se faz sem números sobretudo no momento particular que atravessa a economia nacional. E os de António mostram, como ele próprio corrobora, «que é possível, desde que se acredite no produto e naquilo que se faz».

 

 «Há muito a ideia de que o gin não é feito cá. Mas é. Os alambiques são portugueses, com baldes de infusões portugueses, as rolhas são portugueses, os rótulos são feitos por portugueses», afirma.

 

Por fim, recorda que «todo o projeto foi pensado para tempos de crise, e por isso baseia-se em ter custos fixos reduzidos dando folga maior aos custos variáveis. Quero crescer mas de forma sustentável», remata.