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Portugal à Lupa

Há 13 anos a calcorrear o País como jornalista, percebi há muito que não valorizamos, como devíamos, o que é nosso. Este é um espaço que valoriza Portugal e o melhor que somos enquanto Povo.

Portugal à Lupa

Há 13 anos a calcorrear o País como jornalista, percebi há muito que não valorizamos, como devíamos, o que é nosso. Este é um espaço que valoriza Portugal e o melhor que somos enquanto Povo.

Estoi: Armando, o oleiro que nasceu «no meio do barro»

Bem-disposto, Armando Martins fala do seu percurso, ao mesmo tempo que manuseia o barro de forma ágil e quase sem olhar para a roda. Filho e neto de oleiros, Armando, natural de Estoi (concelho de Faro), aprendeu o ofício da família e mantém viva uma arte que vai resistindo no interior algarvio.

 

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É com uma aula ao vivo que conhecemos a arte de Armando, que desde o início do século XX deu ao Algarve a fama de labor oleiro.

 

«Durante todo o século passado haviam grandes centros de olaria na região, não só em Estoi, mas também em Moncarapacho (freguesia do concelho de Olhão) e Loulé», recorda o artesão.

 

É nos campos da localidade algarvia que apanha a argila verde e de tons vermelhos que usa nas peças que executa. Para que «não partam é necessário misturar várias qualidades». «Se só usar um tipo de argila corro o risco de se partirem, seja na secagem, seja no forno», explica.

 

Na sua oficina designada por “Nova Olaria”, no sítio da Alcaria Branca, em Estoi, e de onde é natural, conta com várias máquinas de moagem do barro «até ficar em espécie de farinha».

 

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«Só se chega às peças depois de moído, sendo depois misturado com água fria e argila em pó. Vai depois a amassar numa máquina a que chamamos amassadeira», revela António, realçando que ainda se recorda do tempo em que «se amassava com os pés e as mãos», à falta de maquinaria.

 

O trabalho na roda é, assegura, «o mais fácil». «Colocamos a massa e depois é criar, ter imaginação ou simplesmente dar conta dos pedidos», afirma.

 

Trabalho, garante, não lhe falta. Chega a ter mil encomendas por semana. «Não me queixo mas sou o único que ainda resiste na família a manter o ofício», diz em tom de lamento, acrescentando que os filhos, dois rapazes, «aprenderam a olaria mas não querem seguir a arte».

 

«Compreendo-os. Hoje os jovens precisam de outras coisas que os aliciem mais», considera o oleiro que, nas horas livres, dedica-se ao fabrico de alcatruzes para a apanha do polvo.

 

Armando faz de tudo. Desde pratos, panelas, cinzeiros, peças decorativas, cântaros, jarras e vasos.

 

Sendo um dos últimos oleiros em atividade em Estoi, Armando dedica-se igualmente à formação, não só na sua oficina mas também com o projecto TASA - Técnicas Ancestrais, Soluções Atuais (iniciativa que pretende recuperar os saberes tradicionais, conferindo-lhes imagem e design moderno e que, ao mesmo tempo, incentiva os jovens para atividades relacionadas com o artesanato).

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Com 50 anos, Armando não se vê a fazer mais nada, sobretudo porque, sublinha, «nasci no meio do barro, em família de oleiros (avô, pai e quatro tios todos trabalharam a arte), e naquele tempo era difícil ser-se outra coisa, sobretudo quando já havia tradição nas famílias». 

 

Não se queixa porque, garante, «é feliz com a sua profissão». Lamenta, contudo, que os jovens «tenham de prosseguir outros caminhos, compreensíveis».

 

«A verdade é que sem passagem de testemunho um dia, o pouco que resta, morrerá. Ficam as obras, se não se partirem», remata, sempre com a mesma boa disposição que o caracteriza.