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Portugal à Lupa

Há 13 anos a calcorrear o País como jornalista, percebi há muito que não valorizamos, como devíamos, o que é nosso. Este é um espaço que valoriza Portugal e o melhor que somos enquanto Povo.

Portugal à Lupa

Há 13 anos a calcorrear o País como jornalista, percebi há muito que não valorizamos, como devíamos, o que é nosso. Este é um espaço que valoriza Portugal e o melhor que somos enquanto Povo.

Camarinha: a pérola do pinhal que foi lágrima da Rainha Santa

A camarinha é uma baga comum nas dunas do pinhal de Leiria. Em agosto atinge o seu esplendor, quando se transforma numa pérola branca, outrora símbolo das lágrimas da Rainha Santa Isabel chamando por El-Rei D. Dinis. É com estas bagas que Fátima Rodrigues, da Saborear - Eventos e Marés, faz desde 2008 geleias artesanais, «únicas no país».  

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Texto e Fotos | Ana Clara

 

A camarinha, com o nome científico de Corema Album, é uma baga de cor branca e tem como habitat preferido regiões do litoral, ornadas por sistemas dunares. Assim acontece nas proximidades do pinhal de Leiria, onde a floresta ganha um encanto especial em Agosto, quando as camarinhas, tornando-se pequenas pérolas, atingem o seu esplendor.

 

Foi nas camarinhas, quase exclusivamente do litoral português (também povoam uma pequena área nas Ilhas Cíes, na Galiza, Espanha), que Fátima Rodrigues encontrou a inspiração para produzir uma geleia que diz «ser a única» a fazer no país.

 

O sabor, explica, «é levemente ácido» mas ao mesmo tempo «fresco» e «muito apreciado por quem compra».

 

«Ao longo dos tempos, as pessoas da costa levavam muitas camarinhas para casa e depois faziam doce. Achei que era uma coisa que não se podia perder e decidi comercializar. Sou a única pessoa a vender a geleia e é uma grande paixão», afirma Fátima.

 

Um fruto que povoa o pinhal de Leiria e que, na opinião da nossa interlocutora, «devia ser mais aproveitado turisticamente».

 

ruibarbo_saborear.jpg

 

Fátima recorda que nos anos de 1960 e 1970 «a camarinha era transportada em cestos de verga e vendida em cartuxo de papel, tal como se fazia com os tremoços e pevides. Havia tanto nas ruas como na entrada do cinema da Figueira da Foz. Lembro-me que faziam tanto sucesso como as pipocas».

 

E acrescenta: «até há bem pouco tempo sei que se vendiam na praia da Nazaré e da Vieira (de Leiria)».

 

O processo de produção, todo ele artesanal, «é moroso», já que a camarinha «é apanhada no local, escolhida, lavada, cozida e filtrada várias vezes para ficar translúcida. Depois apanha calor e muda de cor».

 

Por onde passa, sejam feiras gastronómicas ou eventos turísticos, Fátima Rodrigues, segue sempre acompanhada da famosa Lenda da Camarinha, que «mostra como nasceu esta baga». «Conta-se que o rei D. Dinis andava no pinhal de Leiria, e um dia, ausentou-se. A rainha Santa Isabel foi à procura dele, e quando o viu chegar, começou a chorar. As lágrimas, simbolicamente, derramaram por todo o pinhal e cristalizaram em pérolas», conta a Fátima.

 

Rezava a lenda: «Dizem que Santa Isabel, Rainha de Portugal, montando branco corcel percorria o seu pinhal! “Ai do meu Esposo! Dizei! Dizei-me, robles reais! Meu Dinis! Senhor meu Rei! Em que braços suspirais?! (…) Mas cristalizou-se o pranto em muitas bagas branquinhas e transformou-se num manto de brilhantes camarinhas!...».

 

Com uma oficina particular em Leiria, a doceira faz do negócio gourmet «algo diferente do que normalmente se vê». Além da geleia de camarinha, Fátima produz também compotas de ruibarbo, geleia de pétalas de papoila, doces de figo, amoras e peras, marmelada de maçã e bolachas artesanais.

 

A doceira escoa os produtos em feiras e por encomenda, estando atualmente a tentar entrar na exportação, sobretudo para a Europa. «É um produto único, só nosso, que mais nenhum país pode aproveitar», adianta.