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Portugal à Lupa

Há 13 anos a calcorrear o País como jornalista, percebi há muito que não valorizamos, como devíamos, o que é nosso. Este é um espaço que valoriza Portugal e o melhor que somos enquanto Povo.

Portugal à Lupa

Há 13 anos a calcorrear o País como jornalista, percebi há muito que não valorizamos, como devíamos, o que é nosso. Este é um espaço que valoriza Portugal e o melhor que somos enquanto Povo.

«Boa Viagem» nas águas do Tejo

A idade não lhe tirou encanto nem genica para vencer diariamente as águas do estuário do Tejo. Até outubro, o «O Boa Viagem», uma embarcação tradicional, tipo varino, passeia-se frente a Lisboa. Os interessados contam com vários percursos fluviais à escolha neste «museu-vivo flutuante», como lhe chama o barqueiro João Gregório. Passeios com muito para ver escutar e contar.

 

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Fotos: Ana Clara

 

O embarque estava marcado para as cinco da tarde de 30 de julho. Um dia de verão de feição macambuzia. Céu cinzento, com raros assomos de sol e uma brisa fresca a intrometer-se no ar tépido e húmido. No ponto de encontro, o cais da Moita, as conversas rolam entre alguns grupos presentes. Famílias, amigos, todos de olhos postos nas águas do Tejo, aqui um rio aberto em jeito de grande estuário. Dentro de minutos faremos o embarque. Depois, três horas sobre as ondas cinzentas. O destino é a Base Aérea do Montijo, passando pela Praia do Rosário. De premeio muita paisagem, fauna e histórias, todas em torno deste pequeno mar interior. A faltar, só mesmo aquele céu e luz meridionais que acompanham o verão português.

 

À hora marcada, largam-se as amarras e o «Boa Viagem» corta o cordão umbilical a terra. Um sol, tímido, espreita furtuito entre as nuvens. Esconde-se rápido. A brisa marítima pede agasalho, mal deixamos o cais da Moita. Um porto que marcou ao longo dos últimos dois séculos a vida comercial da vila. Antes da partida, João Gregório, o comandante do varino, havia feito questão de juntar a `tripulação`. Impunha-se uma breve aula de história, bem recebida pelos presentes como acabaria por nos confessar Manuela, acompanhada pelo marido e filho: «Estou a adorar esta explicação toda sobre a história do porto e do barco».

 

Um enquadramento que, antes mesmo de se deter no barco, se vira para o cais, uma construção, sobre estacas, datando de 1722. Uma estrutura que, «outrora foi um importante porto, essencialmente de trabalho» e através do qual a vila da Moita se desenvolveu. «Aqui se escoavam os produtos diretamente para o outro lado do rio, para o mercado da Ribeira, na capital». «Que produtos?», pergunta um dos candidatos a marinheiro por algumas horas. João Gregório explica: «desde o vinho, ao açúcar, mas também batatas e tomates, tudo produtos da terra».

 

Nesta viagem no tempo, o barqueiro conta ainda que a velha muralha de pedra, ao lado do cais, foi alinhada à Estrela Polar. É que no século XVIII, com os barcos à vela era essencial conhecer os tipos de vento. Aqui, estes estão alinhados a Norte e por isso mesmo construíram a muralha e o cais a norte», conta.

 

Num aparte, João conta de forma emotiva esta entrega: «Para mim só faz sentido se for assim. As pessoas que decidem fazer estes passeios precisam de saber a história local e a razão de estes percursos tradicionais existirem». O barqueiro, 56 anos, natural da Moita, conduz há dez os turistas nos passeios do «Boa Viagem». Os périplos no estuário do Tejo são promovidos pela autarquia local.

 

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A «paixão» pelo rio e pelo ofício é visível em cada movimento e frase de João. «O meu avô era fragateiro e, desde sempre, estive em contacto com o mar. «Quando a Câmara da Moita me convidou para estes passeios, fiquei muito contente. Além disso, sou também fundador do Clube Náutico da Moita (criado em dezembro de 1980). Por isso, abracei este convite com muito gosto, porque eu não vivo sem isto», confessa.

 

Memórias nas águas do Tejo:

 

O «Boa Viagem» representa, hoje, «uma destas memórias deste passado associado a esta terra tão ligada ao Tejo. Uma localidade habituada e olhar, lá longe, do outro lado do rio, a linha branca do casario de Lisboa», enfatiza João Gregório, apontando a estibordo. A Moita esteve desde sempre ligada a uma tradição de transportes entre as duas margens do Tejo.

 

A primeira recuperação da embarcação de tipo varino, fundo chato, leme comprido, de proa redonda e alongada e capacidade para transportar 200 toneladas, decorreu entre 1980 e 1981. Na época, os trabalhos estabeleceram-se no estaleiro naval do mestre José Lopes, no Gaio, realça João, acrescentando que já, nessa altura, contou com a Câmara da Moita.

 

Entre os anos de 2010 e 2011, «O Boa Viagem» foi de novo submetido a uma grande intervenção que envolveu a própria estrutura da embarcação, no estaleiro naval de Sarilhos Pequenos, desta feita sob orientação do mestre Jaime Costa.

 

Uma recuperação preocupada com as antigas técnicas de carpintaria naval, tratamento e pintura das madeiras. Em setembro de 2011, a autarquia da Moita, que detém a propriedade da embarcação, com um colorido inconfundível, classificou o «Boa Viagem» como bem cultural de interesse municipal.

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Estas são explicações ao embalo das águas do Tejo. Navegamos há perto de uma hora, impulsionados pelas velas enfunadas. Aliás, grande parte da viagem faz-se à vela. Apenas na partida e chegada escutamos o ronco abafado do motor. 

 

Uma viagem plácida, com tempo para espraiar o olhar sobre uma interessante fatia do estuário do Tejo, da Moita até à Base Aérea do Montijo. Diríamos um percurso quase urbano, antes de partirmos. Contudo, estas margens estuarinas servem de habitat a inúmeras espécies da avifauna. Uma feição que este fim de tarde a bordo do «Boa Viagem» não deixou em mãos alheias.

 

Sob o céu baixo, rasando as águas da margem sul do Tejo, corre o voo gracioso de um bando de garças-brancas-pequenas. Pescoço longo, bater de asas compassado, membros inferiores graciosos, encolhidos sob um corpo alvo. Um voo que solta um espanto entre as crianças a bordo. «Mãe, viste!», grita o pequeno Gonçalo, 8 anos, marinheiro de primeira água nestas aventuras estuarinas.

 

Um rol de avifauna que não se esgotaria ao longo das horas. Dos canaviais a surpresa de, por diversas vezes, ver o voo rasante de uma garça-real. Nos céus, em pequenos voos picados à ré da embarcação, surge a gaivota-de-asa-escura. Hoje não marcaram «presente» o pato-real e o corvo-marinho. João garante que são visita frequente neste percurso.

 

O barqueiro revela-se uma verdadeira enciclopédia ambulante. Incansável, maneja a embarcação, distribui sorrisos e palavras aos mais de 40 companheiros de viagem. Três horas de percurso é tempo considerável. João preenche-o com estórias do rio, memórias destas margens, dos perigos, mas também da beleza que esta paisagem estuarina acolhe. Recorda, ainda os «tempos em que “O Boa Viagem” representava o trabalho das gentes da Moita».

 

«Fizeram-no com estes sons, com estes silêncios, com estes lemes, com estas velas e com estas gentes», vinca.

 

Ronca de novo o motor. Sob o mesmo céu cinzento de há três horas desembarcamos na Base Aérea do Montijo.

 

PERCURSOS

 

Há dois tipos de percursos à escolha de todos os que queiram navegar n’O Boa Viagem. Para quem pretende fazer viagens de três horas tem à disposição os seguintes percursos: Gaio-Alhos Vedros-Gaio; Gaio-Base Aérea do Montijo-Baixa da Banheira-Gaio; Gaio-Rosário-Esteiro Furado-Gaio; Gaio-Rosário-Montijo-Gaio e Gaio-Rgosário-Sarilhos Pequenos-Gaio.

 

Para os que optem por percursos de um dia inteiro há as seguintes opções: Gaio-Base Aérea do Montijo-Alcochete-Gaio; Gaio-Base Aérea do Montijo-Vila Franca de Xira-Gaio; Gaio-Parque das Nações-Santa Apolónia-Alcântara-Belém-Gaio; Gaio-Parque das Nações-Santa Apolónia-Alcântara-Porto Brandão-Trafaria-Gaio; Gaio-Base Aérea do Montijo-Ponte da Erva-Gaio; e Gaio-Santa Apolónia-Terreiro do Paço-Almada-Seixal-Barreiro-Gaio.

 

Todos os interessados podem inscrever-se no Posto de Turismo, na rua Miguel Bombarda, na Moita.