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Portugal à Lupa

Há 13 anos a calcorrear o País como jornalista, percebi há muito que não valorizamos, como devíamos, o que é nosso. Este é um espaço que valoriza Portugal e o melhor que somos enquanto Povo.

Portugal à Lupa

Há 13 anos a calcorrear o País como jornalista, percebi há muito que não valorizamos, como devíamos, o que é nosso. Este é um espaço que valoriza Portugal e o melhor que somos enquanto Povo.

Belmonte: a história do Portugal judaico contada num Museu

No Museu Judaico de Belmonte, o primeiro do género em Portugal, o visitante tem a oportunidade de conhecer, através dos objetos,uma parte da história da comunidade judaica na região bem como a resistência a séculos às perseguições religiosas. Mais de cem peças integram o acervo deste espaço, inaugurado em Abril de 2005, e onde funciona também um Centro de Estudos Judaicos.

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Chegar ao Museu Judaico de Belmonte não é, depois de chegados à localidade beirã, tarefa difícil. A referência que nos é dada é a Praça Velha da vila e onde se encontra o famoso Pelourinho. Daí, seguimos pela Rua Heróis da Independência e desembocamos no n.º 4 da Rua da Portela, uma pequena artéria onde predominam as casas de pedra granítica, típicas desta vila da Beira Interior.

 

Ao entrarmos no edifício do Museu Judaico de Belmonte, um grupo de crianças de uma escola do Fundão acaba também de chegar em visita a este núcleo museológico. «Queremos que este seja também um espaço didáctico e que os mais pequenos contactem com a história dos judeus no nosso país», refere o presidente da Câmara de Belmonte, Amândio Melo.

 

Aqui se conta «a história de um povo que foi decisivo para o desenvolvimento do comércio e da indústria têxtil de lanifícios na Serra da Estrela e que deixou nos centros históricos as antigas judiarias, um elemento que revela bem a importância destas antigas comunidades», diz o edil.

 

O Museu Judaico de Belmonte conduz o visitante à história da comunidade judaica, que se fixou na região, sobretudo no século XV, quando aqui se refugiaram muitas famílias fugidas às perseguições por parte da Inquisição.

 

«Moravam em casas fora das muralhas do castelo, no chamado Bairro de Marrocos, onde ainda hoje podemos ver os símbolos das profissões dos membros da comunidade», explica uma responsável do Museu às crianças da escola do Fundão neste dia. Um desses símbolos é a tesoura que identifica o alfaiate, gravada nas ombreiras das portas das casas habitadas pelos judeus.

 

O espaço, inaugurado em Abril de 2005, divide-se em três áreas, com mais de cem peças religiosas,entre trajes que retratam o dia-a-dia dos judeus, e inúmeros utensílios de uso profissional utilizados por famílias hebraicas, especialmente da Beira Interior e Trás-os-Montes, e que mostram bem os usos e costumes da comunidade.

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 A originalidade dos símbolos judaicos, destaca Amândio Melo, «está igualmente bem patente no espaço».

 

Entre os símbolos mais relevantes da comunidade, estão em exposição o Torah, confirma bem…) , o livro sagrado, o Menorah, candelabro em ouro de sete braços, o cálice do Kiddush, a Estrela de David e oKipa (o chapéu, símbolo de humildade perante Deus) entre outros objetos e representações tidos como os principais símbolos identitários do Judaísmo e vivências judaicas.

 

«Os objetos expostos pertenceram a cristãos novos e seus descendentes e por eles foram utilizados nos atos religiosos, na vida quotidiana e nas atividades profissionais», refere o autarca.

Homenagem a Samuel Schwarz:

 

Também não são esquecidas as principais celebrações do calendário litúrgico, como o Shabat (dia sagrado, de descanso semanal, que começa sempre à sexta-feira ao pôr-do-sol e termina no sábado ao pôr-do-sol), a Pessach (a Páscoa judaica) e a Hannukkah (a Festa da Luz).

 

ASinagoga de Belmonte é outra das realidades retratada no Museu. Para os judeus a Sinagoga é o mais importante local de assembleia e reunião dos membros da comunidade judaica. Neste Museu é possível tomar conhecimento com alguns testemunhos de sinagogas em território português desde a Idade Média, encontrando-se a de Belmonte documentada por uma epígrafe datada de 1297.

 

O Museu de Belmonte presta ainda homenagem a Samuel Schwarz, o homem que está na origem da descoberta dos cristãos novos da vila e que investigou a comunidade local e a divulgou. «Graças à sua enorme sabedoria ele revelou os ritos e costumes destes cristãos novos, em numerosos livros», conta Amândio Melo, lembrando o mais emblemático de todos,“Os cristãos novos em Portugal no Século XX”, publicado por Schwarz em 1925.


No Museu Judaico de Belmonte funciona ainda um Centro de Estudos Judaicos, que tem como objectivo o estudo e investigação do judaísmo em Portugal.

 

Em Março de 2012, o Museu Judaico de Belmonte apresentou ao público alguns «tesouros judaicos escondidos»através de uma exposição - que esteve patente até Maio de 2012 - de alguns objectosencontrados na vila. Entre essas novas peças, encontram-se gravuras, livros e peças metálicas. Para o autarca local, a «aquisição de novos símbolos judaicos tem vindo a crescer ao longo dos tempos» e «Belmonte começa a ter uma visibilidade importante», sendo «uma mais-valia para o investimento da musealização temática da história de Belmonte».

 

Hoje vivem em Belmonte entre 130 a 140 judeus, descendentes de famílias judaicas que por ali aquificaram depois de terem sido expulsos de Portugal e Espanha em finais do século XV. E muitas gerações destas famílias conseguiram, durante algumas centenas de anos, manter as suas práticas religiosas em segredo.

 

«É isso que este museu também nos revela», conclui o presidente da Câmara de Belmonte, Amândio Melo.